2022/06/30

Queixume XVII : Alá ela !

 

Alá ela !


Ali andava el,
solitário i espido
de corpo e de ánima;
sem saber onde pousar
a cabecinha pessada
nim o espírito morto.

Com ninguém quijo falar
e a ningures mirava.
Alá ela, dizia,
cuma voz afligida.
Alá ela, alá ela,
cum moi lento suspiro.

De geonlhos ficava
numha praia escondida,
esperando nevara,
coa mirada perdida
no lonjano infinito
e a ninguém conhecia.

A ninguém estranhava.
Alá ela, dizindo.
Alá ela, alá ela,
outra vez repetia.
E ali quedou el,
para sempre durmido.

🌟



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2022/06/25

Queixume XVI : Meu ocaso

 

Meu ocaso


Cardenalício sol-pôr
que afoga-se no mar.
Um derradeiro estertor
fai ao meu peito parar.

Afogo-me co meu Sol
como no meu próprio mal.
Preciso do seu calor
e compre-me como mãe.

Um adeus crepuscular
de diária despedida.
Exclusiva paisagem
na geografia infinita.

🌟



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2022/06/14

Queixume XV : Vida enxebre

 

Vida enxebre


Nim coroa de loureiro
nem medalha no peito.
Dai-me paz se vós tendes
e um anaco de pam trigo
pra os meninhos que choram
ou nom me dedes nada.

Quero ser um prófugo
dos pecados capitais,
morrer pobre i espido
sem confessar com ninguém
e sem ouvir mais himno
que o canto dum rouxinol.

Rematar a vida enxebre,
ir em sacro siléncio
que só me fale de paz.
Contente do vivido,
agradecido à gente
que véu viajar comigo.

Consagrando-me à terra
que a mim me viu nascer;
aperto-me forte a ela,
pensando no sorriso
que me enche de alegria
e a vós de fermosura.

🌟



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