2022/02/22

Queixume IX : O dia que morrim

 

O dia que morrim


Quando estea já farto
de mirar as flores.
Quando já nom sinta
a música em cores
soar polos regatos,
nem os queixumes do vento
nas fiestras da casa.
Nom tenha já ánsia
de comer-me o Mundo,
nim de cuspir minhas verbas
coa língua dos pais.

Quando no meu ceo
só haja nuvarrós
e visite-me sem aviso
a estrela da anunciaçom
e cortem-me o fio umbilical,
que funda o fusível
da minha alma dormida;
sonharei que morrim
numa barca à deriva,
voando no ceo
cum faro acendido.

🌟



Moradelha editora




Queixume VIII : 22 Berros

 

22 Berros


Uns berros roucos
chamavam por nós
dende um outeiro ardendo.

E iam-se apagando
a pouco a pouco
calando o vento,
o lume mailo rouco.

Vai devagar o tempo,
lento, moi lento,
só vai quedando
um fio de alento,
um berro morno,
o teu lamento.

🌟



Moradelha editora




2022/01/30

Queixume VII : Coraçom aberto


 
Coraçom aberto
*

Traio nas minhas costas
um feixe de queixumes
e nos meus beiços traio
verbas botando lume.

Tenho uma cunha cravada
no médio e médio do peito,
rachando-me as costelas
pra destapar o coraçom.

Só espero que o tormento
bula e aginha passe,
pra poder desenclaustrar
o que me some dentro.

Pola fiestra da alma,
compassado latejo 
há tremer em suspiros
i estoupar liberdade.

🌟



Moradelha editora




2021/12/30

Queixume V : Aninovo 22.6

 

Aninovo 22.6
*

Já deixo atrás de mim
perpétuo siléncio,
a insónia da noite,
as unhas gardunhas
na pel da lascivia.

O vermelho carmim
das noites sem roupa,
muitos dias sem Sol,
recordos de nada,
palabras com ninguém.

Queda-me na bulsa
um feixe de cartos
i estou numha estaçom,
sem sitio para onde ir.

Atrás quedarom-me
uns sonhos perdidos,
nas flores dos anos,
com culto ao proibido.

Queimo iste ano velho
i espero um convoio,
sentado em porrancho
no médio do inverno.

🌟



Moradelha editora 




2021/12/11

Queixume III : Filho da noite

 

Filho da noite
*

Um filho da noite furtiva
fugindo do amor clandestino.
Nom carregará com cadeas,
a alma escura, enmascarada.

O sangue das vivas mapoulas
querendo queimar o seu peito.
Vé-se um ceo claríssimo
e ainda é a noite pecha.

Sinte-se troar dinamita,
aboujando-lhe o baixo ventre.
Canga de pedra de porpianho
leva o penitente pescozo.

Essa luz do faro de lume,
que o deslumbra polo dia
e pom o seu corpo à deriva,
quando se mergulha na noite.

🌟



Moradelha editora




2021/12/06

Queixume I : Tragos de vinagre


 
Tragos de vinagre
*

Seica traguei um fume negro
e sinto-me moi abafado.
Forom as palabras que escuitei,
melhor nom haver escuitado.

Arroiou-me a locomotora,
que tam sequer ouvim-na passar.
O Mundo parar-se nom pode,
e volverá-se a recuperar.

Eu preciso espujar-me um pouco,
superar gratuita maldade,
estarricar o corpo e alma,
dipois deste amargoso trago.

E voltarei ao meu recuncho,
onde todo e serenidade,
durmirei baixo das estrelas,
esperando que haja um milagre.

Pensei que era um bom vinho doce
e manguei del a jeito um trago.
A mala hora foi que o bebim,
vinho nom era, era vinagre.

🌟



Moradelha editora