2022/08/25

Queixume XXV :Sangue geado

 

Sangue geado


Tenho o meu sangue geado coa pena,
uma oculta pena que a mim me gela.
Umas mentidas medosas de nena
e uns enganos trapalheiros dela.
Sonho mirando cara a Lua plena,
pensando esta mágoa, onde ponhe-la.
E a minha ánima tenho-a expectante,
querendo deita-la só um instante.

🌟



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2022/08/22

Queixume XXIV : Peito queimado

 

Peito queimado


Eu sostenho no meu peito queimado,
a paz duma cabecinha pousada.
Tam perto da glória nunca havia estado
nim sentira jamais minha alma amada.
O peito ermo sinte-se agarimado,
cuma tenra soedade confortada.
No avarento refugio do meu colo
descansa ela serena e com consolo.

🌟



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2022/08/21

Queixume XXIII : Mal de olho

 

Mal de olho


Quedei-me sem meu nome
quando mirou-me dum jeito soberbo
aquel malvado home,
co seu aspeto acerbo,
coa mirada que de pouco me come.

Fum cousa inanimada,
a porca miséria fum reducido.
Minha alma fulminada
e cum olho cuspido,
desmaiado e co coraçom detido.

🌟



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2022/08/20

Queixume XXII : Triste dor

 

Triste dor


O que onte era um amor, hoje é triste dor,
meu sacrifício custoso e paciente
desembocou neste grande desamor.
Seguirei só o caminho de aqui adiante,
resignado, para evitar mal maior
e vivirei-no como um penitente
e o que tenha que ser, manhá saberei.
Nom serei já amador, nim traidor serei.

🌟



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2022/08/18

Queixume XXI : Desprezo

 

Desprezo


Seu desprezo tocara osso,
doera, doera muito.
Suas armas bem afiadas,
furaram, furaram fondas.

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2022/08/06

Queixume XX : Mediocridade

 

Mediocridade


Pesa-me a mediocridade
como ao panteom a sua pedra.
Intento aguanta-la sempre,
mas nom che podo com ela.

Vou meter velocidade,
a ver se meu saber medra.
Mais conhecemento cómpre
para poder sair dela.

🌟



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2022/07/30

Queixume XIX : Juventude roubada

 

Juventude roubada


O destino quijo devolver-me
a minha juventude roubada,
mas o tempo vai a recalcar-lhe
que já é auga passada.

Aqueles sonhos que me roubaram,
hoje com eles sonho,
ainda que de tal jeito quedaram,
a minha juventude e meus sonhos.

🌟



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2022/07/05

Queixume XVIII : Presentes

 

Presentes


Os que na sua plena mocidade
fôrom enviados ao mais alá,
tenho-os cada dia presentes.
Foi muita a dor que deixárom acá,
marchando na flor da vida.

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2022/06/30

Queixume XVII : Alá ela !

 

Alá ela !


Ali andava el,
solitário i espido
de corpo e de ánima;
sem saber onde pousar
a cabecinha pessada
nim o espírito morto.

Com ninguém quijo falar
e a ningures mirava.
Alá ela, dizia,
cuma voz afligida.
Alá ela, alá ela,
cum moi lento suspiro.

De geonlhos ficava
numha praia escondida,
esperando nevara,
coa mirada perdida
no lonjano infinito
e a ninguém conhecia.

A ninguém estranhava.
Alá ela, dizindo.
Alá ela, alá ela,
outra vez repetia.
E ali quedou el,
para sempre durmido.

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2022/06/25

Queixume XVI : Meu ocaso

 

Meu ocaso


Cardenalício sol-pôr
que afoga-se no mar.
Um derradeiro estertor
fai ao meu peito parar.

Afogo-me co meu Sol
como no meu próprio mal.
Preciso do seu calor
e compre-me como mãe.

Um adeus crepuscular
de diária despedida.
Exclusiva paisagem
na geografia infinita.

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2022/06/14

Queixume XV : Vida enxebre

 

Vida enxebre


Nim coroa de loureiro
nem medalha no peito.
Dai-me paz se vós tendes
e um anaco de pam trigo
pra os meninhos que choram
ou nom me dedes nada.

Quero ser um prófugo
dos pecados capitais,
morrer pobre i espido
sem confessar com ninguém
e sem ouvir mais himno
que o canto dum rouxinol.

Rematar a vida enxebre,
ir em sacro siléncio
que só me fale de paz.
Contente do vivido,
agradecido à gente
que véu viajar comigo.

Consagrando-me à terra
que a mim me viu nascer;
aperto-me forte a ela,
pensando no sorriso
que me enche de alegria
e a vós de fermosura.

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2022/03/16

Queixume XIV : Herói de palha

 

Herói de palha


Mirei-no e todo eram ossos,
polo SIDA escangalhados.
Era um cadavre deitado
num catre de enfermaria.

Um herói de palha morto
pola princesa heroína,
ou pode que já morrera
ao sacarem-lhe o leite.

Nosso atracador de bancos,
o Robin Hood do bairro,
todo el carne de canhom,
da cadea um hóspede.

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2022/03/08

Queixume XIII : Meu sino

 

Meu sino


É um calado padecer,
destinado ao meu destino.
Inexorável caminhar,
imprevisível caminho.

Sentenciando-me sem juizo,
levando no meu proceder,
a firmíssima esperança
de alcançar a plenitude.

Sintindo-me condenado
a enviar todo o que venha
e leva-lo com sossego,
sem mostrar-me apenado.

Convicçom de resiliente
tem o meu inato entender
e meu espírito o poder
pra soportar iste fado.

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2022/02/22

Queixume IX : O dia que morrim

 

O dia que morrim


Quando estea já farto
de mirar as flores.
Quando já nom sinta
a música em cores
soar polos regatos,
nem os queixumes do vento
nas fiestras da casa.
Nom tenha já ánsia
de comer-me o Mundo,
nim de cuspir minhas verbas
coa língua dos pais.

Quando no meu ceo
só haja nuvarrós
e visite-me sem aviso
a estrela da anunciaçom
e cortem-me o fio umbilical,
que funda o fusível
da minha alma dormida;
sonharei que morrim
numa barca à deriva,
voando no ceo
cum faro acendido.

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Queixume VIII : 22 Berros

 

22 Berros


Uns berros roucos
chamavam por nós
dende um outeiro ardendo.

E iam-se apagando
a pouco a pouco
calando o vento,
o lume mailo rouco.

Vai devagar o tempo,
lento, moi lento,
só vai quedando
um fio de alento,
um berro morno,
o teu lamento.

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2022/01/30

Queixume VII : Coraçom aberto


 
Coraçom aberto
*

Traio nas minhas costas
um feixe de queixumes
e nos meus beiços traio
verbas botando lume.

Tenho uma cunha cravada
no médio e médio do peito,
rachando-me as costelas
pra destapar o coraçom.

Só espero que o tormento
bula e aginha passe,
pra poder desenclaustrar
o que me some dentro.

Pola fiestra da alma,
compassado latejo 
há tremer em suspiros
i estoupar liberdade.

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2021/12/30

Queixume V : Aninovo 22.6

 

Aninovo 22.6
*

Já deixo atrás de mim
perpétuo siléncio,
a insónia da noite,
as unhas gardunhas
na pel da lascivia.

O vermelho carmim
das noites sem roupa,
muitos dias sem Sol,
recordos de nada,
palabras com ninguém.

Queda-me na bulsa
um feixe de cartos
i estou numha estaçom,
sem sitio para onde ir.

Atrás quedarom-me
uns sonhos perdidos,
nas flores dos anos,
com culto ao proibido.

Queimo iste ano velho
i espero um convoio,
sentado em porrancho
no médio do inverno.

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2021/12/11

Queixume III : Filho da noite

 

Filho da noite
*

Um filho da noite furtiva
fugindo do amor clandestino.
Nom carregará com cadeas,
a alma escura, enmascarada.

O sangue das vivas mapoulas
querendo queimar o seu peito.
Vé-se um ceo claríssimo
e ainda é a noite pecha.

Sinte-se troar dinamita,
aboujando-lhe o baixo ventre.
Canga de pedra de porpianho
leva o penitente pescozo.

Essa luz do faro de lume,
que o deslumbra polo dia
e pom o seu corpo à deriva,
quando se mergulha na noite.

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2021/12/06

Queixume I : Tragos de vinagre


 
Tragos de vinagre
*

Seica traguei um fume negro
e sinto-me moi abafado.
Forom as palabras que escuitei,
melhor nom haver escuitado.

Arroiou-me a locomotora,
que tam sequer ouvim-na passar.
O Mundo parar-se nom pode,
e volverá-se a recuperar.

Eu preciso espujar-me um pouco,
superar gratuita maldade,
estarricar o corpo e alma,
dipois deste amargoso trago.

E voltarei ao meu recuncho,
onde todo e serenidade,
durmirei baixo das estrelas,
esperando que haja um milagre.

Pensei que era um bom vinho doce
e manguei del a jeito um trago.
A mala hora foi que o bebim,
vinho nom era, era vinagre.

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