2023/02/21

Queixume LII : Contingéncia

 

Contingéncia
*

Triste contingéncia,
a horrível mirada
dum corvo ferido,
dum rato moribundo.

Os ciclos da vida,
contingentes sucessos,
sem pausa nim volta,
sem compaixom nim perdom.

Entrópica espiral
da dor e da morte,
que por onde passa
remexe e arrasa.




Moradelha editora





2023/02/03

Queixume LI : Desventura

 

Desventura
*

Passeando a desventura
dos ermos pensamentos,
polo vazio interior
da agonia abafadiça.

Com chagas nos miolos
que som as que proibem 
pensar com claridade,
que me impedem bafejar.

Assustado coa crueldade
que há no ser humamo,
nom dou ido direito
nem direito dou pensado.




Moradelha editora





2023/02/02

Queixume L : Mirada soez

 

Mirada soez
*

Botou-me uma mirada soez
que fico-me rebaixado
à categoria de chusma.

Entom quigem morrer ali,
coa sua meledicéncia,
enterrado em vida.




Moradelha editora




2023/01/26

Queixume XLIX : Maldade

 

Maldade
*

Co lume da maldade
coce o demo seu veleno
e intenta que o enviemos
a golpes de promessas
e falsas esperanças;
queimando-nos a gorja
quando menos esperamos.




Moradelha editora




2023/01/25

Queixume XLVIII : Pobreza

 

Pobreza
*

Morto coa fame
e sem nada de comer.
Cheio de cartos
e sem auga pra beber.

Morrendo de sede
diante duma fonte,
que nom pinga nim fecha,
que secou coa avareça.




Moradelha editora




2023/01/23

Queixume XLVII : Dor da alma

 

Dor da alma
*

Levo cravado no peito
um outeiro de carqueixas,
uma tojeira no médio
e duas herdades de milho.

E doe, doe tanta miséria
e doe tanto sofremento.
Doe, a alma penando,
espujada no lameiro.




Moradelha editora




2023/01/18

Queixume XLVI : Maldiçom

 

Maldiçom
*

Persegue-me a maldiçom,
nom tenho escapatória.
Vou colhendo-a como vem,
convivindo com ela.


Moradelha editora

2023/01/09

Queixume XLV : Ter ou nom ter

 

Ter ou nom ter
*

Hoje atopei à vergonça
i ela era como uma estátua.
Dipois vim-lhe a cara ao medo
i era um corvo num canastro.

E seica o medo nom sabe 
que as águias nom comem milho.
Gente que nom tem fartura,
sempre com fame de cartos.

Fum visitar à avareça
e confinou-me na casa,
para que eu nom perdera
todo o meu ouro ganhado.

Entom morria coa fame,
mas eu moi cheio de cartos.
E sentim muita vergonça,
quedei pra sempre parmado.

I espertei-me com medo
ao pensar que me roubaram,
até que entom acordei-me
que eu ter, nom tenho nada.




Moradelha editora





2022/12/31

Queixume XLIV : Cabisbaixo

 

Cabisbaixo
*

Um ser cheio de vitalidade
condeado a viver parmado
entre a inutilidade.

Atrofiando seu espírito
na servidume dos parvos,
para nom fazer guerra
contra tanta ignoráncia.

Um hominho cabisbaixo,
que nascera cavilando
e que cavilando segue.

🌟



Moradelha editora




2022/12/22

Queixume XLIII : Sem descanso



 Sem descanso
*

Coraçom emancipado,
mas preso dum sentimento
que nom permite descanso
ao seu ritmo acelerado.

Penando cum latejo
ascendente e descendente,
sofrindo co seu pesar
de peito penitente.

🌟



Moradelha editora




2022/12/21

Queixume XLII : Sangue alourado

 

Sangue alourado
*

Meu sangue flue alourado
de tantas humilhacions,
viaja intoxicado
de mintiras i enganos.

Correndo cheio de mágoas,
meu sangue só clareará
coa luz do novo Mundo,
cos sete estralos do ceo.

🌟



Moradelha editora




2022/12/12

Queixume XLI : Morto siléncio

 

Morto siléncio
*

Um morto siléncio
repousa no vento.
Soturnos pensamentos
recorrem meu ser.

Borboleta hipnotizada
pola luz da lámpada.
Acerbo vertigem
que derrete a paixom.

Serena tristura
e inexorável viagem
ao desvám do esquecemento,
ao baú dos recordos.

🌟



Moradelha editora




2022/11/28

Queixume XL : Feitiço

 

Feitiço
*

Quedou a ánima absorta
numa corrente misteriosa,
cuma sensaçom corrupta,
paralisada e tremulosa.

🌟



Moradelha editora





2022/11/15

Queixume XXXIX : Pena

 

Pena
*

Meus olhos nom brilham
e nom me sae a voz,
já nom tenho canto,
quedei-me sem cuspe,
come-me a pena.

🌟



Moradelha editora




2022/11/03

Queixume XXXVIII : Sangue de tojo

 

Sangue de tojo
*

Sangue de tojo e de gestas
dormem num pátio calado.
Umas ánimas cinzentas
agardando seu momento.

🌟



Moradelha editora




2022/11/01

Queixume XXXVII : Velho carvalho

 

Velho carvalho
*

Morreu um velho carvalho
mas há seguir connosco,
dando-nos ainda sombra
por muito tempo, sempre.

Uma sombra de recordo,
a sombragem do consolo,
pésames, terra sombriça
de árvore espida, esquelete.

🌟


A Pepe Monea in memoriam



Moradelha editora




2022/10/29

Queixume XXXVI : Língua afiada

 

Língua afiada
*

Tem uma língua afiada
polos maltratos passados;
está sempre à defensiva.

E queima-me o coraçom 
coa mirada tam fria,
marea-me seu desprezo.

Crava-me uns alfinetes
nas meninhas dos olhos
coas palavras que escreve.

🌟



Moradelha editora




2022/10/27

Queixume XXXV : Pesado pesadelo

 

Pesado pesadelo
*

Erguim-me co corpo chumbeiro,
nos pés a gravidade do Sol,
e sequer dava dado um passo
trás o pesado pesadelo.

Mas nossas vidas continuam,
seguimos caminhando sem remédio,
co mochilom iste cargado ao lombo,
bem calcado nas minhas costas.

Seguirei loitando de novo à manhá
com iste corpo pesado de chumbo,
com todas minhas esperanças postas
em que todo se volva muito liviám.

🌟



Moradelha editora




2022/10/15

Queixume XXXIV : Abonda pouco

 

Abonda pouco
*

Abonda com bem pouco
pra cair deprimido
quando tés altíssima
a sensibilidade.

Abonda com bem pouco
pra sentir alegria,
se a sensibilidade
té-la na flor da pele.

E com pouco abonda-lhe
a quem nada che quere
e abonda-lhe bem pouco
a quem nada precisa.

Nom há cousa que chegue
pra quem todo o quere.
Sempre tenho de abondo
pra quem nom quere nada.

Douche todo o que tenho
e ti sigues espido.
Para ir bem vestido,
primeiro tés que espir-te.

🌟



Moradelha editora





2022/10/05

Queixume XXXIII : Guerra !

 

Guerra !
*

Temos um Mundo de amor regalado
e sem embargo, guerra !.
Temos luz.
Temos mel.
Temos miradas
e sem embargo, guerra !.
Temos bicos e amenceres
e noites cheias de estrelas,
sorrisos celestiais,
auga fresca nas fontes
e sem embargo, guerra !
e fame e miséria,
miséria humana.

🌟



Moradelha editora




2022/10/03

Queixume XXXII : Lume

 
Lume
*

É minha soidade
um lume acendido,
que nom quenta a ninguém.

Estou abeirado a el,
tenho muito frio;
frio no peito, na res.

Estou arripiado,
compre-me uma manta
pra quentar mans e pés.

🌟



Moradelha editora





2022/09/30

Queixume XXXI : Terra

 

Terra


Parcimoniosas augas
e devagar das bágoas;
transparentes miradas
e brilhantes lamentos
que há sorver a Terra,
coma senhora e dona
do que sobre ela habita.

🌟



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2022/09/28

Queixume XXX : Veleno


 
Veleno


Picada de víbora
sinto no peito,
mala rabia me come,
quantíssima dor !.
Um veleno de áspide
a minha alma devora.

🌟



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2022/09/24

Queixume XXIX : Rejeitado

 

Rejeitado


Nem com desprezo rejeitado,
afundirei-me desvalido.
As minhas forças vam ocultas
e meu ánimo sempre inteiro.

🌟



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2022/09/20

Queixume XXVIII : Verbas negras

 

Verbas negras


Dessa dor tam amarga
que arrastras polo mundo,
tam azeda i escura,
saem as tuas verbas negras.

Tam pretas e geadas
como o mais cru inverno,
congelam-nos o corpo,
pelando os ossos todos.

Coitelo hostil e afiado
com pedra feitizada
por um rabudo demo
de roja encarnadura.

Quem as lea quedará
sem dúbida adoecido,
se querendo ou sem querer
dá enviado essas palavras.

Mensagens que escreviches
com letras com espinhos;
verbas negras com tinta
sanguenta de difunto.

🌟



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2022/09/13

Queixume XXVII : Derradeiro bafejo

 

Derradeiro bafejo


Tenho o meu sangue tam seco
como a seiva duma ponla
na mais desértica area
e meus ossos consumidos.

Mas irei turrando de vós,
entranto que tenha vida;
turrarei de vós ainda
no derradeiro bafejo.

🌟



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2022/09/12

Queixume XXVI : Cadeas

 

Cadeas


Quigera colher as tuas mans
de feitura transparentes,
apertar a tua alegria
e sentar-me nas tuas cores.

Respirar os teus tremores,
e vibrar coas tuas vozes,
deitadinho no teu berce,
caminhar pola tua vida.

Bafejar os teus aromas
e romper minhas cadeas,
voando por fim sem elas
deitadinho no teu corpo.

🌟



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2022/08/25

Queixume XXV :Sangue geado

 

Sangue geado


Tenho o meu sangue geado coa pena,
uma oculta pena que a mim me gela.
Umas mentidas medosas de nena
e uns enganos trapalheiros dela.
Sonho mirando cara a Lua plena,
pensando esta mágoa, onde ponhe-la.
E a minha ánima tenho-a expectante,
querendo deita-la só um instante.

🌟



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2022/08/22

Queixume XXIV : Peito queimado

 

Peito queimado


Eu sostenho no meu peito queimado,
a paz duma cabecinha pousada.
Tam perto da glória nunca havia estado
nim sentira jamais minha alma amada.
O peito ermo sinte-se agarimado,
cuma tenra soedade confortada.
No avarento refugio do meu colo
descansa ela serena e com consolo.

🌟



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2022/08/21

Queixume XXIII : Mal de olho

 

Mal de olho


Quedei-me sem meu nome
quando mirou-me dum jeito soberbo
aquel malvado home,
co seu aspeto acerbo,
coa mirada que de pouco me come.

Fum cousa inanimada,
a porca miséria fum reducido.
Minha alma fulminada
e cum olho cuspido,
desmaiado e co coraçom detido.

🌟



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2022/08/20

Queixume XXII : Triste dor

 

Triste dor


O que onte era um amor, hoje é triste dor,
meu sacrifício custoso e paciente
desembocou neste grande desamor.
Seguirei só o caminho de aqui adiante,
resignado, para evitar mal maior
e vivirei-no como um penitente
e o que tenha que ser, manhá saberei.
Nom serei já amador, nim traidor serei.

🌟



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2022/08/18

Queixume XXI : Desprezo

 

Desprezo


Seu desprezo tocara osso,
doera, doera muito.
Suas armas bem afiadas,
furaram, furaram fondas.

🌟



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2022/08/06

Queixume XX : Mediocridade

 

Mediocridade


Pesa-me a mediocridade
como ao panteom a sua pedra.
Intento aguanta-la sempre,
mas nom che podo com ela.

Vou meter velocidade,
a ver se meu saber medra.
Mais conhecemento cómpre
para poder sair dela.

🌟



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2022/07/30

Queixume XIX : Juventude roubada

 

Juventude roubada


O destino quijo devolver-me
a minha juventude roubada,
mas o tempo vai a recalcar-lhe
que já é auga passada.

Aqueles sonhos que me roubaram,
hoje com eles sonho,
ainda que de tal jeito quedaram,
a minha juventude e meus sonhos.

🌟



Moradelha editora





2022/07/05

Queixume XVIII : Presentes

 

Presentes


Os que na sua plena mocidade
fôrom enviados ao mais alá,
tenho-os cada dia presentes.
Foi muita a dor que deixárom acá,
marchando na flor da vida.

🌟



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2022/06/30

Queixume XVII : Alá ela !

 

Alá ela !


Ali andava el,
solitário i espido
de corpo e de ánima;
sem saber onde pousar
a cabecinha pessada
nim o espírito morto.

Com ninguém quijo falar
e a ningures mirava.
Alá ela, dizia,
cuma voz afligida.
Alá ela, alá ela,
cum moi lento suspiro.

De geonlhos ficava
numha praia escondida,
esperando nevara,
coa mirada perdida
no lonjano infinito
e a ninguém conhecia.

A ninguém estranhava.
Alá ela, dizindo.
Alá ela, alá ela,
outra vez repetia.
E ali quedou el,
para sempre durmido.

🌟



Moradelha editora




2022/06/25

Queixume XVI : Meu ocaso

 

Meu ocaso


Cardenalício sol-pôr
que afoga-se no mar.
Um derradeiro estertor
fai ao meu peito parar.

Afogo-me co meu Sol
como no meu próprio mal.
Preciso do seu calor
e compre-me como mãe.

Um adeus crepuscular
de diária despedida.
Exclusiva paisagem
na geografia infinita.

🌟



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2022/06/14

Queixume XV : Vida enxebre

 

Vida enxebre


Nim coroa de loureiro
nem medalha no peito.
Dai-me paz se vós tendes
e um anaco de pam trigo
pra os meninhos que choram
ou nom me dedes nada.

Quero ser um prófugo
dos pecados capitais,
morrer pobre i espido
sem confessar com ninguém
e sem ouvir mais himno
que o canto dum rouxinol.

Rematar a vida enxebre,
ir em sacro siléncio
que só me fale de paz.
Contente do vivido,
agradecido à gente
que véu viajar comigo.

Consagrando-me à terra
que a mim me viu nascer;
aperto-me forte a ela,
pensando no sorriso
que me enche de alegria
e a vós de fermosura.

🌟



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2022/03/16

Queixume XIV : Herói de palha

 

Herói de palha


Mirei-no e todo eram ossos,
polo SIDA escangalhados.
Era um cadavre deitado
num catre de enfermaria.

Um herói de palha morto
pola princesa heroína,
ou pode que já morrera
ao sacarem-lhe o leite.

Nosso atracador de bancos,
o Robin Hood do bairro,
todo el carne de canhom,
da cadea um hóspede.

🌟



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2022/03/08

Queixume XIII : Meu sino

 

Meu sino


É um calado padecer,
destinado ao meu destino.
Inexorável caminhar,
imprevisível caminho.

Sentenciando-me sem juizo,
levando no meu proceder,
a firmíssima esperança
de alcançar a plenitude.

Sintindo-me condenado
a enviar todo o que venha
e leva-lo com sossego,
sem mostrar-me apenado.

Convicçom de resiliente
tem o meu inato entender
e meu espírito o poder
pra soportar iste fado.

🌟



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2022/02/22

Queixume IX : O dia que morrim

 

O dia que morrim


Quando estea já farto
de mirar as flores.
Quando já nom sinta
a música em cores
soar polos regatos,
nem os queixumes do vento
nas fiestras da casa.
Nom tenha já ánsia
de comer-me o Mundo,
nim de cuspir minhas verbas
coa língua dos pais.

Quando no meu ceo
só haja nuvarrós
e visite-me sem aviso
a estrela da anunciaçom
e cortem-me o fio umbilical,
que funda o fusível
da minha alma dormida;
sonharei que morrim
numa barca à deriva,
voando no ceo
cum faro acendido.

🌟



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Queixume VIII : 22 Berros

 

22 Berros


Uns berros roucos
chamavam por nós
dende um outeiro ardendo.

E iam-se apagando
a pouco a pouco
calando o vento,
o lume mailo rouco.

Vai devagar o tempo,
lento, moi lento,
só vai quedando
um fio de alento,
um berro morno,
o teu lamento.

🌟



Moradelha editora




2022/01/30

Queixume VII : Coraçom aberto


 
Coraçom aberto
*

Traio nas minhas costas
um feixe de queixumes
e nos meus beiços traio
verbas botando lume.

Tenho uma cunha cravada
no médio e médio do peito,
rachando-me as costelas
pra destapar o coraçom.

Só espero que o tormento
bula e aginha passe,
pra poder desenclaustrar
o que me some dentro.

Pola fiestra da alma,
compassado latejo 
há tremer em suspiros
i estoupar liberdade.

🌟



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2021/12/30

Queixume V : Aninovo 22.6

 

Aninovo 22.6
*

Já deixo atrás de mim
perpétuo siléncio,
a insónia da noite,
as unhas gardunhas
na pel da lascivia.

O vermelho carmim
das noites sem roupa,
muitos dias sem Sol,
recordos de nada,
palabras com ninguém.

Queda-me na bulsa
um feixe de cartos
i estou numha estaçom,
sem sitio para onde ir.

Atrás quedarom-me
uns sonhos perdidos,
nas flores dos anos,
com culto ao proibido.

Queimo iste ano velho
i espero um convoio,
sentado em porrancho
no médio do inverno.

🌟



Moradelha editora 




2021/12/11

Queixume III : Filho da noite

 

Filho da noite
*

Um filho da noite furtiva
fugindo do amor clandestino.
Nom carregará com cadeas,
a alma escura, enmascarada.

O sangue das vivas mapoulas
querendo queimar o seu peito.
Vé-se um ceo claríssimo
e ainda é a noite pecha.

Sinte-se troar dinamita,
aboujando-lhe o baixo ventre.
Canga de pedra de porpianho
leva o penitente pescozo.

Essa luz do faro de lume,
que o deslumbra polo dia
e pom o seu corpo à deriva,
quando se mergulha na noite.

🌟



Moradelha editora




2021/12/06

Queixume I : Tragos de vinagre


 
Tragos de vinagre
*

Seica traguei um fume negro
e sinto-me moi abafado.
Forom as palabras que escuitei,
melhor nom haver escuitado.

Arroiou-me a locomotora,
que tam sequer ouvim-na passar.
O Mundo parar-se nom pode,
e volverá-se a recuperar.

Eu preciso espujar-me um pouco,
superar gratuita maldade,
estarricar o corpo e alma,
dipois deste amargoso trago.

E voltarei ao meu recuncho,
onde todo e serenidade,
durmirei baixo das estrelas,
esperando que haja um milagre.

Pensei que era um bom vinho doce
e manguei del a jeito um trago.
A mala hora foi que o bebim,
vinho nom era, era vinagre.

🌟



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